A seguir a Yangon e Bagan, o plano de viagem delineado indicava Mandalay como o 3º destino em Myanmar. Ao fim de 4 dias em Bagan, estava na hora então de voltar à estrada. Bilhete comprado na banca de tours mesmo em frente ao Hotel. Desta vez a viagem já não seria feita num autocarro VIP mas numa mini-van cujo ar condicionado já tinha, com certeza, tido melhores dias. De costas encharcadas e coladas ao assento lá segui eu numa viagem de 4 horas em direcção a Mandalay. Confesso que não tinha grandes expectativas em relação a esta cidade mas acabei por, mais uma vez, ser surpreendida com alguns dos momentos mais especiais e únicos que tive durante a viagem toda.

Depois da calma e tranquilidade de Bagan, o trânsito e o movimento de Mandalay deixaram-me meia atordoada mas, mesmo assim, no dia seguinte pela manhã, peguei numa das bicicletas disponibilizadas gratuitamente pelo Hotel e parti em busca do Palácio Real, uma das principais atracções de Mandalay. Ao chegar à entrada sou barrada de forma algo ríspida pelos militares que se encontravam à porta. Aparentemente os estrangeiros não podem entrar por ali. É preciso dar a volta e entrar pela outra entrada oficial. O ar ríspido dissipa-se quando, ao perguntarem de onde sou, respondo “Portugal”. “Aaah! Cristiano!”, diz o militar mais velho, “O Cristiano é meu amigo, sabias?”. “A sério? Bem, eu sou prima dele.”, respondo eu. Riem-se, o ambiente fica mais levezinho, mas mesmo assim não há forma de entrar por ali. Pego na bicicleta, debaixo de um sol que fazia os termómetros marcarem 40º, e sigo para a outra entrada, do lado oposto do Palácio.

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Comprado o bilhete, entro no recinto do Palácio de bicicleta na mão já que não é permitido passar o pequeno túnel da entrada em cima da mota ou bicicleta. É impossível não reparar nos vários avisos que se encontram espalhados pelo espaço: existe uma área bastante vasta do recinto interdita a estrangeiros. A zona exterior ao palácio é uma zona de domínio militar e como tal de acesso restrito, sendo igualmente totalmente proibido captar imagens de qualquer estilo.
Sigo o caminho que nos é reservado e chego ao Palácio. O espaço é composto por vários edifícios de várias dimensões, em tempos usados pela realeza como habitação e sede de Governo. Percorro praticamente todos e sento-me por alguns instantes nas escadas de acesso a um deles, na tentativa de fugir ao calor infernal que se fazia sentir. Enquanto lá estou sentada reparo que se aproximam de mim algumas pessoas que, entre sorrisos rasgados, se sentam ao meu lado para poderem tirar uma fotografia comigo. Quando uma saía do meu lado, vinha logo outra ocupar o lugar. Eu limitava-me a sorrir para os vários paparazzi que me rodeavam, qual estrela de cinema.

Mandalay

Ainda no mesmo dia à tarde parto em busca da U Bein Bridge, uma das maiores pontes em estacas de madeira do mundo. Apanho uma carrinha de caixa semi-aberta de passageiros a cerca de 5 minutos do Hotel, no centro de Mandalay, e lá consigo explicar para onde quero ir. Espremo-me para chegar a um dos 2 lugares disponíveis no fundo da carrinha, as senhoras que lá estavam olham para mim e sorriem com um ar de curiosidade e espanto e eu devolvo-lhes o sorriso. Passado 15 minutos o ajudante do motorista faz sinal para eu sair e dá a entender que a U Bein Bridge é já ali. O “já ali” dele era claramente bem diferente do meu “já ali”. Sigo o GPS, peço indicações a uma menina de uma loja, e acabo por me enfiar no meio de uma pequena comunidade junto ao rio. O GPS diz que de facto a U Bein Bridge se encontra no final daquela estrada, pelo que continuo. Recebo sorrisos, olhares repletos de curiosidade, alguns “Mingalabar” * e sinto que estou a viver um dos momentos mais autênticos da viagem. Claramente são raros ou praticamente nenhuns os turistas que passam por aquela estrada.

Mandalay (Dia 02) - 84

Finalmente chego à ponte antes ainda do por-do-sol. Dezenas de pessoas percorrem-na de um lado ao outro. Monges, população local, turistas… Os jovens monges abordam alguns turistas para poderem praticar o seu inglês e tirarem fotos com eles, outros fogem às objectivas das máquinas fotográficas de outros turistas que os consideram uma atracção. A meio da ponte olho para baixo e vejo que de um lado e do outro se encontram 2 cafés com cadeiras e mesas espalhadas em frente ao rio e não perco tempo em descer as escadas para aproveitar o espectáculo do por-do-sol enquanto bebo uma cerveja Myanmar.

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No último dia visito Mingun, uma ilha conhecida principalmente por ser o lar do 2º maior sino do mundo, destinado originalmente ao imponente Pagoda que ainda hoje se encontra na ilha, mas que não chegou a ser acabado. O sino nunca chegou a entrar no Pagoda, tendo sido deixado em terra como atracção turística. Na impossibilidade de apanhar o ferry local para lá, vejo-me obrigada a alugar um barco que pelos vistos traz os serviços de um guia local também, um rapaz novo chamado Sai. O barco de 2 andares pertence a uma senhora que o gere com a filha adolescente.
Ao chegar à ilha seguimos até ao topo do Pagoda inacabado. Como é obrigatório entrar de pés descalços, as escadas são subidas o mais rapidamente possível já que a pele entra em ebulição assim que pisa o tijolo dos degraus. A vista lá em cima é fantástica mas o sol e o tijolo escaldantes não dão espaço para longos momentos de contemplação. Ao descermos dirigimos-nos para o local onde se encontra o famoso sino. À sua volta já se encontram algumas pessoas, (essencialmente Birmaneses), entre as quais muitos monges que também visitavam Mingun, e que, de grandes toros de madeira na mão, batem no sino na expectativa de lhe conseguirem extrair algum som. Outros passam por baixo do sino para o seu interior. Sigo-os. Lá dentro parece que entrámos numa batalha a ver quem consegue tirar mais fotos uns aos outros. Eles tiram-me fotos a mim, eu tiro-lhes fotos a eles. Mesmo sem comunicação verbal, existe uma harmonia e entendimento total entre nós. A curiosidade é mútua e fazemos questão de a mostrar sempre que podemos. A visita a Mingun termina no Pagoda branco, um templo fantástico, todo pintado de branco. No interior, quase vazio, encontram-se algumas crianças e mulheres a vender colares de flores, homens a acenderem incenso e um ou outro turista essencialmente de origem birmanesa.

Regresso ao centro de Mandalay no mesmo barco que me trouxe e sigo para o Hotel para apanhar as malas, antes de partir para o terminal de autocarros que me levaria até ao próximo destino: Inle Lake. Mas essa é uma história para a próxima crónica. 🙂

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Nota: A palavra Mingalabar, em birmanês, é o equivalente a “Olá” em português.

Nascida e criada em Lisboa, Portugal, mas apaixonada pelo mundo. Adoro partilhar as minhas histórias de viagem, fotografias e videos e aconselhar e inspirar quem partilha a mesma paixão pelas viagens!